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Menos Horas, Mais Preços: O Dilema Inflacionário da Redução da Jornada de Trabalho

ExclusivoMenos Horas, Mais Preços: O Dilema Inflacionário da Redução da Jornada de Trabalho
Estudo entregue ao governo indica que redução da jornada aumenta inflação

A Redução da Jornada de Trabalho e seus Efeitos Inflacionários: Uma Análise Crítica
A proposta de redução da jornada de trabalho tem ganhado destaque no debate público brasileiro, muitas vezes associada à promessa de melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores. No entanto, um estudo recente apresentado ao governo lança luz sobre um efeito colateral potencialmente preocupante: o aumento da inflação. Essa relação, à primeira vista contraintuitiva, merece uma análise mais profunda para entender como a diminuição das horas trabalhadas pode reverberar na economia de maneira a pressionar os preços.

A lógica por trás desse impacto inflacionário começa com a estrutura produtiva.

Imagine uma fábrica que hoje opera com trabalhadores cumprindo 44 horas semanais. Se essa jornada for reduzida, digamos, para 36 horas, sem ajuste nos salários, as empresas enfrentam um dilema: manter a mesma produção com menos horas de trabalho por funcionário ou contratar mais pessoas para compensar a diferença. Em ambos os cenários, os custos operacionais tendem a subir. No primeiro caso, seria necessário aumentar a eficiência por hora, o que nem sempre é viável no curto prazo, especialmente em setores com baixa automação. No segundo, a contratação adicional eleva a folha de pagamento, encarecendo os bens e serviços produzidos. Esses custos, em grande parte, são repassados ao consumidor final, alimentando a inflação.

Outro ponto a considerar é o impacto sobre a oferta de bens e serviços. Com menos horas trabalhadas, a capacidade produtiva pode encolher temporariamente, enquanto as empresas se ajustam à nova realidade. Se a demanda por produtos permanecer constante ou crescer como ocorre em economias em recuperação ou com políticas de estímulo ao consumo, o desequilíbrio entre oferta e procura pressiona os preços para cima. Esse fenômeno é particularmente sensível em setores como varejo e serviços, onde a escala 6×1 (seis dias de trabalho por um de folga) é comum e a redução da jornada poderia amplificar a escassez de mão de obra.

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Além disso, há um efeito indireto no mercado de trabalho. Uma jornada menor sem redução salarial pode atrair mais trabalhadores ao mercado formal, mas também elevar a competição por vagas. Empresas, para reter ou atrair talentos, poderiam aumentar os salários, especialmente em áreas com alta demanda. Esse crescimento na renda disponível, embora benéfico para os trabalhadores, injeta mais dinheiro na economia. Sem um correspondente aumento na produção, o resultado é uma pressão inflacionária de demanda, onde mais poder de compra disputa uma quantidade limitada de bens.

Alguns argumentam que a redução da jornada pode estimular a produtividade, e trabalhadores mais descansados e motivados poderiam render mais por hora, neutralizando os custos adicionai. Experiências internacionais, como a redução da semana de trabalho na França para 35 horas em 1998, mostram que os impactos inflacionários não foram tão expressivos quanto o previsto, embora acompanhados de ajustes salariais moderados e resistência inicial do setor privado.

Contexto Histórico: A Semana de Três Dias no Reino Unido

Um exemplo histórico que ilustra a relação entre redução de jornada e impactos econômicos é a “Semana de Três Dias” implementada no Reino Unido em 1974. Devido a crises energéticas e greves, o governo limitou o uso comercial de eletricidade a três dias por semana, visando conservar energia. Essa medida resultou em queda na produção industrial e aumento dos custos operacionais, afetando negativamente a economia britânica.

No contexto brasileiro, porém, onde a produtividade tem crescido lentamente (segundo dados do IBGE, a produtividade do trabalho no país caiu 0,3% ao ano entre 2012 e 2022), esse otimismo pode ser questionável.

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O estudo em questão, embora não detalhado aqui em números exatos por falta de acesso direto ao documento, parece alinhar-se a uma visão cautelosa. Ele sugere que, no caso brasileiro, a redução da jornada de 44 para 36 horas poderia gerar uma perda no PIB entre 2% e 8%, dependendo do cenário, com reflexos diretos na inflação. Essa projeção considera tanto a queda na produção quanto o aumento dos custos operacionais, num momento em que a economia já enfrenta desafios como juros elevados, incertezas fiscais e jurídicas.

Do ponto de vista social, a proposta carrega um apelo inegável: mais tempo livre para lazer, família e capacitação. Mas o preço dessa conquista pode ser uma erosão do poder de compra, ironicamente afetando os mesmos trabalhadores que se busca beneficiar. Assim, o desafio para o governo é encontrar um equilíbrio, e talvez via incentivos fiscais para empresas que adotem jornadas reduzidas sem comprometer a estabilidade econômica. Sem isso, a redução da jornada corre o risco de ser uma vitória de curto prazo com custos duradouros difíceis de reverter.

Em suma, a relação entre menos horas de trabalho e mais inflação reflete uma tensão clássica entre bem-estar social e dinâmica econômica. O estudo entregue ao governo serve como um alerta: boas intenções precisam de planejamento robusto para não se transformarem em armadilhas inflacionárias. Cabe agora aos policymakers pesar os dados, ouvir os setores envolvidos e decidir se o Brasil está pronto para esse salto, ou se o remédio, ao invés de curar, pode agravar a doença.

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